A cena poderia ser facilmente confundida com um episódio clássico da serie The Walking Dead. Aquele ser rastejante, grunhindo, maltrapilho vindo em direção do quarto. Quem olha diria que é um zumbi, mas sou eu, levantando madrugada a dentro pela quinta ou sexta vez em dez meses, ao choro do bebê. Prazer, sou uma mãe que não dorme.
Quando estamos gravidas, o que mais nos dizem é para dormir ao máximo pois depois o trabalho será árduo. Pois eu o fiz. No último mês de gestação (de férias do técnico e já afastada do trabalho) eu dormia, eu dormia e dormia mais um pouco. Nem tirava o pijama durante o dia, já que ia dormir de novo: eu, colchão e barrigão viramos um só. Aí a Dona Clara nasceu e na primeira noite, lá na maternidade mesmo, a bichinha não pregou o olho sedenta pelo novo mundo fora do casulo. E assim foi-se, por todos esses meses. Você leitor que não tem filho não tem noção do que é isso. Ouvir pela milésima vez o bebê te chamar novamente. Meu corpo já nem responde mais as coordenadas que o fraco cérebro envia, meus olhos nem abrem com a sensação de terem jogado a força um balde de areia em cada um. Olhei tantas vezes para o teto e clamei por Deus, mas hoje sei que talvez Deus dissesse:
-Tenho nada com isso não, te dei um bebê forte com saúde e o resto é com você.
Está certo, discordo não, mas era difícil. Ás vezes eu tinha medo de dormir pois sabia que logo ela acordaria então ficava ali meio de plantão. Vai entender.
Em dez meses desenvolvi técnicas ninjas para entrar no quarto sem fazer barulho, xinguei os cachorros dos vizinhos por latirem tanto, consegui manjar da nobre arte de assistir televisão no mudo e aprendi todos os macetes para as portas fecharem sem ranger.  Tudo para ela dormir um pouco mais e com sorte eu dormir também. Nada.
Aí comecei a procurar técnicas para o bebê dormir a noite toda. Assisti tutoriais, pesquisei em "sites maternos", perguntei para amigos, vizinhos, avó... Nada. Cada técnica era mais mirabolante que a outra. Umas pregam para chorar até dormir, outras para não dar mais o peito de madrugada... Coisas assim. Muitas vezes subiu o sangue no "zóio", cheio de olheiras aliás, e eu dizia que naquela a noite ela não ia escapar. Que nada, lá estava eu mais uma vez de madrugada acudindo a dona chorona. "Sou uma mãe de merda" constatava eu enquanto me largava na cama depois de fazê-la dormir. OUTRA VEZ.
Gente, ser mãe é "tudibão", é lindo, fabuloso, vocês nem imaginam, mas CARA a gente precisa dormir. NECESSITA. Um tempo ainda vai e por mais que você tenha dormido tudo o que podia na gestação, na terceira noite sem dormir tu já ta pedindo penico. E é fato. E eu já estava desiludida.
Mas aí numa bela manhã, eu acordo assustada. Ouço a Clara me chamar mas sei que passou muito, mas muito tempo desde que dormi. Sei pois meus olhos já não ardem tanto, olho o relógio: são seis da manhã.
SEIS DA MANHÃ? Como assim? Do nada? Não é possível. Clara dormiu das onze da noite as seis da manhã. Podia ser um milagre, comemorei internamente, mas aquilo só podia ser uma exceção. Uma noite de exceção. Mas aconteceu na segunda noite, terceira noite e assim foi vários dias. E eu fiquei feliz. Contidamente feliz, pois ainda tenho medo de tudo mudar e ela começar acordar novamente, vai que... Mas ás vezes olho para ela dormindo e penso: essa neném ta crescendo rápido demais. Sei que muita gente aplica mil técnicas e consegue rapidinho esse desfecho fabuloso e eu admiro a força de vontade, mas eu simplesmente nunca consegui pois ao olhar aqueles buchechões chamando por mim, quebrava todo meu sangue no zóio ao ver elaquerendo meu colinho de mamãe né? Sei que tem muitas mamãe zumbis aí na batalha e sei como é ter um sonho dourado de dormir outra vez uma noite inteira, mas tamô junto, pois de um jeito de outro uma hora esses nenéns vão reclamar de sair da cama mas aí será nossa vingança!
No mais, ainda tem algumas noites (raras) que ela dá uma resmungada e eu levanto num pulo pra ela. Parece que mais ela quer verificar ser estou por ali mesmo mas logo volta para o sono gostoso. Agora pouco mesmo estava aqui assistindo (pasme) The Walking Dead e decidi dar uma olhadinha nela. Clara estava de olhos abertos olhando para o teto pensando na sua vidinha difícil. Suspirou, colocou o dedinho na boca fechou os olhos e dormiu. Meu coração se encheu de amor e pensei que sorte a minha, ter uma filha tão linda assim até as olheiras valem a pena no final.
Aliás, vocês leram bem? Eu assistindo THE WALKING DEAD? Eu assistindo séries assim tranquilamente? Como isso? Como uma seriadora viciadíssima, transforma-se numa mãe seriadora? Bom isso, fica para o próximo post. Mas dá sim viu?


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